terça-feira, 27 de maio de 2014

mas e os sonhos?

Quando a cabeça não dá paz é hora de colocar todos os desorganizados pensamentos em letras que juntas formam muitas palavras sem sentido. Eia que.

Essa nunca foi a faculdade dos meus sonhos. Mas se tornou um sonho estudar aqui. Então fiquei pensando que talvez não tivesse sido um sonho se eu tivesse ido para o lugar que sempre sonhei. Talvez tudo aquilo tenha se tornado um pesadelo. Há umas semanas atrás fui conhecer a faculdade dos meus sonhos e eu realmente achei que talvez, e somente talvez, pudesse ter sido um sonho sim.

Quando eu estava no terceiro ano de Ensino Médio, uma professora me disse uma vez que a grama do vizinho é sempre mais verde. Na época não entendi. Mas hoje eu realmente achei que talvez a grama da faculdade dos sonhos estivesse mais verde. 

Esse nunca foi meu emprego dos sonhos. Mas se tornou um sonho trabalhar aqui. E talvez o emprego dos sonhos se torne um pesadelo. A gente nunca vai saber de verdade não é mesmo? 

As vezes a gente escolhe, as vezes a vida escolhe pela gente. Eu tenho deixado a vida escolher por mim há tanto tempo que me habituei com que as escolhas, me habituei com a vida encarregada delas. Acho que a última escolha que fiz foi ter mudado de sala no último ano do Ensino Médio. Todas as outras não foram de fato uma escolha, foram somente uma falta de ação que me levou a diversas consequências e aprendizados, bons ou ruins. Mas então o que é mesmo fazer uma escolha? Será que o ato de acordar todos os dias e escolher ir trabalhar de vestido ou de calça jeans não é escolher alguma coisa que pode mudar minha vida para sempre? 
O que muda a vida? 

Acho que nunca saberemos, se e como seriamos caso tivéssemos realizados nossos sonhos do modo que imaginamos. Ou se tivéssemos escolhido menos ou mais. Eu sei que já falei sobre o tal "SE" dessa e dessa outra vez. Mas ele continua aqui, continua aqui nos assombrando. 

Hora de andar, hora de andar, hora de andar. Mas nada sai do lugar! Que droga! Continue andando e andando. Hora de fazer escolhas, daquelas que mudam sua vida para sempre. Quando você anda para frente, necessariamente deixa algo para trás. E as vezes esse algo é bom, mas esteve em sua vida tempo suficiente para me fazer alguém melhor. Eu gosto de misturar essa terceira e primeira pessoa, porque eu sou nós e nós é você. 

Mas eu já sonhei tanto e já vivi tantas coisas que se tornaram sonho que hoje não sei mais como sonhar. Alguém me ensina como voltar a ter vitalidade e a crença dos 14 anos por favor? Alguém me ensina como ter a coragem de encarar o mundo aos 14 anos por favor? Por que eu encarei o meu mundo aos 14 anos e estou morrendo de medo de encarar o meu mundo aos 22. Porque o mundo dos 22 é maior? Mas eu também sou maior né? 

Alguém me fala qual o botão que eu aperto para sonhar de novo? Como quando eu tinha 14 anos e queria ser dona de uma revista adolescente? Como quando eu tinha 15 anos e queria ir para o Oriente Médio cobrir a guerra do Iraque? E depois tudo ficou tão escorregadio... Será que dá para ser criança sendo adulto?

domingo, 25 de maio de 2014

"A única coisa mais inconcebível do que ir embora era ficar; a única coisa mais impossível do que ficar era ir embora. Eu não queria destruir nada nem ninguém. Só queria sair de fininho pela porta dos fundos, sem causar alvoroço nem conseqüências, e depois só parar de correr quando chegasse à Groenlândia."
Liz Gilbert
 



quarta-feira, 7 de maio de 2014

qual é a vida real então?

Sou uma pessoa apegada. Me apego a uma bolsa, a um local, a um restaurante, a uma pessoa, a um sorriso. Me apego. Porque quando algo faz o nosso coração bater mais forte e transparece no sorriso não há como e nem porque não se apegar. (ok, até pode existir uma série de porquês, mas não vem ao caso). 
Eu fui muito apegada a escola, a amigos e a rotina que levava. Porque eu era sinceramente feliz, simplesmente feliz. Nessa época me diziam que essa não era a realidade. Eu fiz amigos, dos quais alguns ainda estão por perto e tanto outros já se perderam no caminho. E são mais de 4 anos, mais de 500km. Mas se fosse fantasia, será que os amigos dessa época ainda estariam por perto? 
Bom aí eu pensei, ok escola, hora de dar tchau. Oi vida real! E fui para a faculdade. Então eu me apeguei de novo, a amigos, a casa, a um campus lindo. Porque não há como não se apaixonar pela Rural. E me disseram de novo, essa não é a realidade da vida. Espere até você começar a trabalhar e pagar suas contas. Eu estou trabalhando e pagando contas agora. E já experimentei todas as aflições de não ter dinheiro, poder ser demitida, andar com o carro na reserva, virar a noite estudando, trabalhar até muito além da hora, não ter tempo para comer no dia. Mas agora a faculdade está acabando e eu tenho a sensação de que nada foi real. Será que os amigos vão ficar por perto como os da escola? 


Então, onde fica a vida real? Será mesmo que tudo a gente vive até os vinte e poucos anos é tudo uma fantasia?
Um dia me disseram que os amigos que levamos para a vida toda são os da faculdade, porque eles vão te acompanhar em sua profissão. Desculpe, eu preciso discordar do "senso comum" e dizer que os amigos que levo para a vida toda são aqueles que me escolhem, que não desistem de mim, que insistem ao meu lado. 
Claro que a faculdade faz da gente outra pessoa. Claro que todas as pessoas passam e contribuem para isso. E claro que depois de terminar o curso a gente sai conhecendo um monte de gente com a mesma profissão que a nossa, no caso da Rural, gente que não é também! 
Mas e agora? Será que vai começar mesmo a vida real? Talvez já seja tarde para isso né vida? 


Talvez a minha vida real seja cheio de sorrisos, de amigos e de bons momentos. Talvez a vida real que eu construí seja conseguir continuar sorrindo mesmo quando o chão some em baixo dos meus pés. Mas as vezes as coisas ficam tão difíceis que até o habitual sorriso se torna uma dificuldade e a vontade é de ficar deitada na cama o dia todo. Mas a gente não tem uma vida de fantasia para manter? Ou é essa mesmo a vida real? 


quinta-feira, 13 de março de 2014

Seja Minas Gerais

Foi Carnaval. E eu morando no Rio de Janeiro e me mantendo aqui o verão todo com a cidade cheio de turistas e altas temperaturas tudo que mais queria era correr daqui. Não necessariamente para o lugar que fui, mas meu pai decidiu e a ideia era manter o feriado em família.
Então o roteiro inicial foi Ibitipoca, MG.
Ibitipoca é um distrito de Lima Duarte que fica mais ou menos 1h de Juiz de Fora. Depois que você chega em Lima Duarte, vá até o posto de gasolina, enxa o tanque de seu carro e vá ao caixa e saque todo o dinheiro que você pretende gastar durante o tempo que estiver no vilarejo. É, lá não tem posto de gasolina e nem caixa eletrônico. Em alguns estabelecimentos de alimentos ainda aceita cartão, mas são bem limitados, então não arrisque! Depois de fazer os procedimentos necessários para sobreviver no fim de semana embarque em uma estrada de terra chão batido por mais uns 40 minutos.
O vilarejo conta com mil e poucos habitantes de acordo com o senso do IBGE de 2010. Então, já pense que o lugar é pacato e tranquilo. Até demais eu diria. 
Mas enfim, chegamos no sábado de carnaval sem ter reservado nada e conseguimos alugar uma das casas da Dona Conceição, quem indicou para gente foi o seu Zé do Arame e quem nos falou dele foi um moço de uma loja de lembrancinhas. #reflitam
A casa era bem grande, mas a Dona Conceição fez um preço legal porque estávamos só em três pessoas. 
A atração principal da cidade é o Parque Estadual. 

Esse, tem alguns caminhos e vários lugares para conhecer. Nós, uma família sedentária e louca, resolvemos fazer o caminho mais longo, a Janela do céu. 16km. 
Dicas e relatos de viagens podemos encontrar em diversos blogs e sites especializados aqui na internet. A minha opinião pessoal é o lugar sensacional, super vale a pena os 16km mas o caminho é BEM (bem mesmo) pesado. 


Depois de morrer na Janela do Céu passar o dia em Ibitipoca, resolvemos seguir viagem para Caxambu, viajamos mais algumas 2 ou 3 horas até lá e conhecemos as águas ruins e consideradas medicinais. Diz a lenda que a Princesa Isabel engravidou depois que começou a beber as águas do Parque das águas de Caxambu.


O resultado de tudo é que foram os 5 dias de carnaval em terras mineiras e a conclusão que tive é que o mundo precisa ser mais Minas Gerais. E eu nem quero abordar sobre os caras bonitos! Isso nem assunto para esse post.
Gente, não há igual em nenhum outro lugar que eu já fui. É mais do que ser educado, é ser prestativo.
Porque em nenhum outro lugar que eu já fui as pessoas te atendem sempre sorrindo, te dão tanta atenção pessoal. Em nenhum outro lugar que eu já fui os donos dos restaurantes veem até a mesa e perguntam se está tudo bem, se estamos sendo bem atendidos. E claro que a comida eu nem preciso comentar né? A gente sempre encontra uns quilos em algumas esquinas por lá. Eu comi um café da manhã tipicamente mineiro (rosquinhas, suco de laranja, pão de queijo -com queijo de verdade-, café com leite e  famoso pão de canela de Ibitipoca -delícia-), caraaaa dos Deuses!
Em nenhum outro lugar que eu já fui as pessoas param o que estão fazendo para te ajudar a chegar em algum lugar, para te dar uma informação, para te levar onde você precisa se for o caso.

Enfim, depois de 5 dias cheios de Minas Gerais eu consigo ter esperança de pessoas boas no mundo, de um mundo bom. Porque, em minha opinião, o mundo precisa de educação para começar. E encontrar um lugar com pessoas prestativas... Ah isso seria quase uma utopia, se eu não tivesse vivido isso.

Então, na primeira oportunidade que você tiver, vá  Minas Gerais e tente levar um pouco  daquela prestatividade. Vá até a Minas Gerais e seja um pouco de Minas Gerais.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

A menina que roubava livros - o filme

Devo ter ganhado o livro logo depois que foi lançado em 2007 ou 2008. Desde então eu li inteiro pelo menos três vezes. Se tornou me livro de cabeceira, minha enciclopédia preferida, o amor da minha vida, a idealização de escrita. Eu não preciso dizer que o meu exemplar está todo marcado, grifado, pitando e um tanto quanto sujo.
Já contei sobre a história aqui (se você não conhece a história, leia o post antes de continuar esse texto por favor.) e hoje pretendo falar do tão (pelo menos por mim) esperado filme.

Fui ver no cinema domingo passado num dia de febre e garganta inflamada. Prometo que vou somente fazer a critica e não contar o filme, caso tenha algum caso de spoiller, eu volto e aviso antecipadamente.

Minha maior expectativa e claro, por consequência, minha maior decepção: a narração da morte
É o que particularmente mais me fascina no livro e por isso desde que eu soube que o filme seria lançado fiquei esperando por algo muito bom. Mas, o que é o destaque no livro não foi destaque no filme. Não sou roteirista e não tenho ideia de como desenvolver isso, mas esperava uma voz feminina, apática e com algumas passagens em específicas do livro como por exemplo algumas "verdadezinhas" que ela conta parando um momento da história. Eu realmente esperava essa pausa.

Minha maior surpresa: as atuações
Impecáveis é uma palavra que define muito bem. Especialmente da menina que interpretou Liesel (que desde o trailer era o meu "pé atrás". O olhar penetrante de todos eles foi algo que realmente me surpreendeu. O ódio, a esperança e a dúvida foram extremamente bem colocados através dos olhares dos atores, bem como "sentido" enquanto eu lia o livro. Apesar de também se decepcionar com a Rosa, porque eu esperava que ela fosse gorda como no livro, ela foi indicada ao Óscar, então me recuso a fazer qualquer crítica a sua atuação. :p

O cenário e os figurinos também estão muito bem colocados. Esperava a Biblioteca do Prefeito muito maior.

A adaptação do roteiro foi muito boa, o que faz com que o filme seja um bom filme, em minha humilde opinião. A história foi coerente e transmitiu com a linguagem cinematográfica a história e a essência que o livro pretende. Eu, como fã, tinha minhas cenas preferidas e algumas delas não entraram, óbvio! Mas não posso ser hipócrita o suficiente em falar que essas cenas que não entraram prejudicaram o entendimento geral do filme.

Conclusão geral é que vale a pena assistir, simplesmente pelo fato de que é uma boa história. E "quando a morte conta uma história, você deve parar para ouvir"


sábado, 1 de fevereiro de 2014

case-se

Um de meus sonhos de vida sempre foi casar-se. Julguem-me feministas e sociedade metida a moderninha. Sim, eu sempre tive o sonho americano de morar em um casa sem portão com um marido lindo, rico e médico e filhos gêmeos. Só não curto muito o animal de estimação porque ia dificultar minhas viagens. Mas não ligaria se alguém de minha família quisesse ter.
Essa semana eu li um texto sobre casar-se que me emocionou (leia aqui). Julguem-me pseudo intelectuais, eu também leio blogs fúteis de menininhas. Mas bom, fiquei pensando sobre o casamento. Na verdade tenho tido várias reflexões sobre relacionamentos depois que comecei a ler "Comprometida", c continuação de "Comer, Rezar e Amar" da querida Liz Gilbet.

Bom eu já morei em uma casa sem portão, então o sonho já foi metade realizado.

Antes de mais nada, se liguem na definição de casamento:
Significado de Casar (de acordo com esse dicionário online)

1. v.i. Unir pelos laços conjugais.
2. V.t. Dar em casamento: casar uma filha.
3. Fig. Juntar, unir, aliar: casar o útil ao agradável.
4. V.pr. Contrair matrimônio.
5. Juntar-se, unir-se.

Gosto especialmente da definição 3.

Casar é como dividir a sua vida com o próximo e comecei com minhas abstrações que o próximo pode ser um país, uma música, um cantor ou mesmo um amigo. Então o meu próximo lema de vida é: case-se.
Porque o casamento te ensina a dividir, a cooperar, a ceder, a reconquistar, a lutar, a acreditar, a pensar menos eu e mais nós. E talvez o mundo precise mas do nós.
E mesmo que tudo der errado, pelo menos você conheceu alguém ou algo. Pelo menos você aprendeu mais sobre o nós.

Mas a dica é casar-se várias vezes, com muitas coisas, lugares e pessoas diferentes e ao mesmo tempo. Case-se com data de validade, com contrato assinado podendo ser renovado depois de um tempo. Mas case-se, entregue-se como se fosse a última coisa que você pudesse fazer na vida. Vá morar na Groelândia porque você quer casar-se com pinguins, mesmo tendo certeza que odeia o frio. Então faça um contrato com os pinguins de 6 meses. E case-se. Assim mesmo, vá e dê tudo de si, vá e abra mão de você mesmo por aqueles pinguins. Case-se e não pense que o Brasil você poderia estar pegando uma praia com sol de 40 graus. Só se sinta feliz por estar casada com os pinguins.

Algumas pessoas de minha família são casada há mais de 25 anos e observando toda essa relação uma coisa que aprendi é que casamento é doação de todos os lados. Por isso eu preciso dizer o quão importante é o casamento. O mundo inteiro precisa de mais doação ao próximo.


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

último ano

ATENÇÃO: se trata de post longo e cheio de lembranças, não comece a ler se não estiver disposto a saber sobre lembranças de terceiro no de ensino médio de uma garota chata que não fez bagunça e não matou aula para ficar bêbada.

Era 2002 e 2006. Depois foi em 2009 e agora é 2014. Ciclos que fecham em nossa vida e que são marcados por ciclos que fecham na escola enquanto ainda te obrigam a ser estudantes. Depois ciclos que continuam a se fechar por estudos porque você escolheu isso. Ou ciclos que se fecham pelo próprio caminho que você traçou.

Eu me lembro bem do meu 3° ano do Ensino Médio. Eu decidi que teria que ser o melhor. E desde que o ano começou eu sabia que seria o último naquela cidade, naquela realidade, com aqueles amigos e principalmente, naquela escola. E, hoje com mais consciência de tudo que já vivi e da responsabilidade que tenho com tudo que vou viver eu consigo perceber que desde muito nova eu sabia que estar onde eu estava não era o suficiente. E por esse mesmo motivo estou caminhando de modo tão diferente do que a maioria das pessoas que passaram e passam pela minha vida.
Eu acordava todos os dias as 5h45, pegava uma calça jeans o uniforme da escola, um chinelo ou um tênis, uns cadernos, uma bolsa cheia de roupa de ballet, tomava um copo de lite com chocolate, escovava os dentes, tentava fazer o meu cabelo ficar liso ou simplesmente prendia um rabo de cavalo, colocava um chapéu ou fazia com que a franja ficasse escondida. Saia de casa 6h25, encontrava o meu vizinho e caminhávamos até o terminalzinho perto de casa. Pegava o ônibus 6h35 e chegava no ponto da escola 7h55. Geralmente tinha alguém me esperando. Subia uma rua longa até a escola e a conversa era sempre qualquer futilidade que eu não lembro, ou a matéria da prova, ou a última fofoca, ou a programação do fim de semana, ou a programação de depois da aula (apensar de eu nunca ter tempo para nenhum dos dois).

Quando eu chegava no portão de trás (para que os alunos não ficassem na pracinha, como se adiantasse!) a diretora estava as 7h sorrindo, dando um carinhoso "Bom dia!" e pedindo para ver o nosso uniforme. Ela reclamou do meu uniforme cortado em forma de baby-look durante todos os 7 anos que eu estudei na escola, mas no 3° ano tenho a impressão que ela desistiu de mim (ainda bem!). Acho que foi aí que eu peguei a mania de dizer Bom dia todas as vezes que chego de manhã em qualquer lugar. Atravessava todo o pátio interno da escola, subia as escadas e eu ia para uma sala e a minha melhor amiga de Ensino Médio ia para outra. Eu decidi que precisava trocar de sala por motivos de ser odiada na sala que eu estava no 2° ano. Era engraçado o 3° ano. A realidade dentro da minha sala de aula era totalmente diferente do que a realidade no intervalo, entrada e saída da escola. Eu tinha que me dedicar a minha melhor amiga quando não estava na sala e podia ter outros amigos incríveis enquanto estava tendo aula.

Depois da escola eu tinha uma rotina diferente cada dia da semana, o que fazia com que ninguém (nem meus pais) soubesse onde eu estava a tarde, ao não ser quando a pessoa tinha que estar comigo. Eu podia estar no meu bairro dando aula para minhas alunas preferidas, ou podia estar no Projeto fazendo aulas de jazz ou dando aula para as minhas alunas amigas. Eu também podia estar na escola sendo monitora de matemática da 5° série ou na academia fazendo mais aulas de jazz. Só que eu também podia estar em qualquer outro lugar se encontrando escondido com meu então namorado. Costumava deixar um post it na buzina do carro do meu pai antes de sair para a escola para lembra-lo de onde ele precisava ir me buscar. Então todos os fins de tarde ele passava ou no projeto ou na academia e me levava até o pré-vestibular. Eu deixava o material da escola e a bolsa do ballet e pegava a apostila do cursinho. Atravessava a Av Brasil e sempre chegava cedo demais para aula. Mesmo assim entrava pelo portão lateral, mostrava a minha carterinha e ia para cantina ou para sala de estudos. As vezes eu ia direto para a minha sala de aula guardar lugar e tentar fingir que estudava alguma coisa. E quando dava 19h eu tinha que estar pronta, com outras 5 amigas do lado para encarar mais 4 horas de professores falando sobre coisas que eu já esqueci.

Eu me lembro de dormir nas aulas de física do 3° ano porque o professor do cursinho tinha explicado a mesma matéria na noite anterior. Me lembro de fazer a lição de matemática durante a educação física porque eu não tinha tido tempo de fazer em casa, na verdade eu nem tinha ficado em casa. Eu fazia alguns exercícios dos famosos Caderninhos do Aluno do Governo de São Paulo e trocava com a minha amiga de sala que tinha feito outros. Eu me lembro de copiar as redações que eu entregava no Pré-Vestibular para a professora de redação da escola. Também tinham as aulas que fazíamos reuniões de formatura ou de camiseta de formandos, para na verdade não assistir aula (eram sempre escolhidas a dedo, por exemplo aulas de Filosofia ou Sociologia, coisas desse tipo). E tinham as aulas que eu assinava uma autorização para que eu pudesse ir embora mais cedo para ir ao banco e não perder a aula de jazz a tarde. Tinham as quintas que passávamos pela diretora da escola as 7h e falávamos que entraríamos na 2° aula porque era dia de pastel. E nós realmente entrávamos na 2° aula. E teve um Diário de Bordo e um caderninho de lembranças desenvolvidos por mim e por minha melhor amiga. Teve dias que eu simplesmente quis ficar em casa dormindo e fiquei. Teve provas que eu descobri que teria no dia que ela seria aplicada. Teve aulas sentada no fundo da sala porque eu não queria fazer nada. E teve aulas que eu realmente não fiz nada porque eu achava mais importante fazer exercícios da apostila do cursinho. Eu de fato, fiquei pirada. Os intervalos eram em lugares que não poderiam me encontrar, geralmente perto da sala da diretora, onde tinha um sofá quentinho no inverno. Hoje em dia ele fica dentro da direção, o que impediria totalmente de passar lá o intervalo. Eu gostava de ficar no caminho que uma das professoras passaria na volta para a sala, porque ela me trazia amoras do estacionamento. Ah e também havia o sagrado salgado de salsicha: 10 min antes do sinal bater para o intervalo o dinheiro tinha que estar a mão e o material pronto para ser fechado em 2 segundos. Essa era uma das vantagens de sentar na primeira carteira em frente a porta, eu tinha o poder de sair da sala antes de qualquer outra pessoa. E também tinha a vantagem de estudar no corredor de salas mais perto do pátio de fora, onde ficava a cantina. Os salgados de salsicha se tornaram sagrados porque se eu não fizesse todo esse esquema de pegar o dinheiro antes, sentar perto da porta e (por sorte) estudar no corredor que ficava mais perto do pátio de fora eu jamais conseguiria o único salgado de salsicha que era vendido na cantina. Quantas vezes eu já não arrisquei minha vida descendo aquela escadaria de dois em dois degraus, correndo feito louca para garantir o meu lanche e para não pegar fila, claro!

O ano foi passando e eu tive que escolher que Universidade eu estudaria no próximo ano, isso incluiria me mudar de Campinas. Aconteceu também que eu precisava continuar estudando no pré-vest e eu já não tinha mais saco. E houve aquele desespero de não saber o que seria e como seria o ano seguinte. Eu não achava que podia existir vida pós escola. Eu não achava que podia existir uma ótima vida pós escola. E isso me deixava enlouquecida. Acho que só não pirei de vez porque tinha absoluta certeza do que eu queria fazer pelo menos. Eu já sabia que seria jornalista desde que eu entrei na 5° série. E não consigo imaginar outra profissão exatamente por ser a única que eu quis na vida. Mas me deixava enlouquecida o fato de eu não ter referências nenhuma sobre a faculdade e eu gostava tanto de ter tudo sob o meu controle absoluto. HÁ, coitadinha... O ciclo se fechou, hoje eu fico me perguntando se eu seria outra pessoa se não tivesse passado por isso, mas sei que eu estive exatamente no lugar que eu precisava e no momento que eu tinha que estar. E dois mil e nove passou e eu sobrevivi.
Não foi um ano que eu vivi adoidado como a maioria das pessoas que conheço. Eu não matei aula, não fiquei vagabundando no pré-vestibular, não fui pra balada e nem fiz nenhuma doideira. E não me arrependo de absolutamente nada, me tive um ano feliz e inesquecível. Eu não fui igual a todas as pessoas, mas de qualquer forma não é todo mundo que está estudando em uma Universidade Federal, não é todo mundo que foi selecionada para passar um semestre da graduação em outra federal do país...

Agora o último ano da faculdade vem chegando. Junto dele mais uma crise sobre o que fazer depois. E pesquisas sobre outros cursos, pós graduação, mestrado. Qualquer coisa que me mantenha estudando. Já que desde que eu me entendo por gente isso é tudo que eu faço na vida. Que se feche mais um ciclo. Que venha cheio de mudanças, pois hoje eu sei que são elas que me fazem, que me constroem. Eu já aprendi que eu nasci para as mudanças. Dois mil e quatorze, mais um último ano sombrio e desconhecido.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

o que eu sou quando cresci

em homenagem ao dia das crianças.

o texto é uma nota que escrevi no facebook em qualquer época de devaneio.

de 8 de fevereiro de 2013 às 20:57
Sempre achei que a questão de toda felicidade do mundo fosse se tornar quem você sempre sonhou na infância. Sempre achei que precisava ter um bom emprego e um apartamento comprado aos 21 anos. Porque em minha cabeça infantil eu seria uma adulta formada aos 21 anos, como todas as outras pessoas que eu conhecia de 20 e poucos anos. (pelo menos eu imaginava que elas eram pessoas independentes e esclarecidas com essa idade)
Fiz planos para a vida desde muito nova, planos sobre onde estudar, o que fazer quando chegar, em que direção seguir e que tipos de amigos ter por perto.
Hoje eu percebo que planos são bons. Eles me deram objetivos para buscar, me deram sonhos para realizar na vida. Mas nem em todos os meus pensamentos infantis eu me imagina aos 21 anos assim como eu sou hoje. 
Eu achava que fosse ser dona do meu próprio nariz, totalmente despregada dos meus pais e com amigos muito diferentes daqueles que hoje eu considero amigos de fato. 
Mas na verdade o lance todo é que por mais que você faça planos e se esforce para realiza-los e fazer com que a vida seja do jeito em que você montou naquelas noites antes de dormir, um tal de destino muda tudo e te leva para onde ele bem entender. 
A gente descobre que os pais se tornam mais essenciais na medida em que os anos passam. A gente entende que nosso melhor amigo é sempre a gente mesmo e que o mundo e as pessoas não eram grandes e sim nós que éramos pequenos.
Em nenhuma das cenas montadas em minha cabeça infantil sobre meus 20 e poucos anos eu me imaginava tão feliz como estou agora. Eu nunca pensei que alguém pudesse de fato sentir tanta felicidade, tanto orgulho de si mesmo, tanta satisfação pelo que se tornou (ou tem tentado se tornar). 
E minha maior questão hoje em dia não é ser exatamente igual como eu sonhei. Eu ando pensando se a criança que eu era teria orgulho da adulta que me tornei (ou tenho tentado me tornar). E sim, eu com certeza seria a heroína de mim mesma quando criança. E acho que isso é suficiente para continuar a correr atrás dos meus sonhos, isso é suficiente para continuar tentando ser uma pessoa melhor a cada dia!

sábado, 14 de setembro de 2013

final do fim de período

esse texto não é auto-biográfico. 
Mesmo assim tudo que eu escrevo tem um pouco de mim, assim como tem um pouco de ficção. Na verdade, o modo de encarar e enxergar a vida muda de olho pra olho. A verdade é tão relativa afinal de contas...

Último semestre da faculdade e tudo que eu queria era não ter que estar ali. Tudo que eu queria era não precisar estudar e não precisar ter que terminar aquela chatérrima monografia.
Depois de dois longos meses longe daquela cidade que não era minha, segui automaticamente fazendo malas e sabendo que eu só voltaria ver meus pais depois de pelo menos uns 30 dias. Eu estava mudando de casa, de novo. Era quarta ou quinta casa desde que eu decidi que precisava estudar em outro estado.
E agora, parece que faz tanto tempo que eu fiz malas para voltar para essa última parte da vida.

Defendi a monografia no mesmo dia em que recebi a proposta de emprego da minha vida. Senti um misto de felicidade extrema e de medo e de saudades e de apreensão, tudo ao mesmo tempo. E agora, estou colocando tudo no porta-malas do carro e partindo para mais uma fase da minha vida. Agora na cidade grande, na capital do país, tão perto e tão longe de tudo que já vivi. E eu queria levar todas aquelas pessoas que me assistiam enquanto eu arrumava tudo, eu queria coloca-las no porta-malas, nos bancos do carro, no bagageiro, eu queria leva-las comigo.

O que aconteceu foi que toda aquela vizinhança nova, era realmente nova. Eles me lembraram de como era mágico aquele lugar chamado Universidade. Eles me lembraram que o estudo era o de menos naquele momento. E agora eu tenho certeza que só e somente eles me sustentaram em pé nesse último momento que estava tão longo e tão pesado.

A Universidade é mesmo um lugar de formação, seja ela pessoal, profissional. É um lugar que você vive os mais loucos, os mais incríveis, os mais tristes, os mais felizes. A Universidade é sempre mais. E você só entende o que isso significa quando participa dessa fase, quando muda de casa e enfrenta a vida nova. Quando constrói e desconstrói tudo que você acredita na vida pelo menos três vezes. Quando você ama e desama a mesma pessoa cinco vezes no mesmo dia. É a época que você menos dorme na vida, mas a que mais dorme também. É a época que menos estuda, mas a que mais estuda também.

E os amigos, eles estão tão perto e participam tanto de sua vida. Você faz amizades que são tão diferentes de você. Você desfaz amizades que achava que duraria para sempre. E talvez, você fique por anos e anos sem encontra-los depois que for embora. Ou eles serão os seus melhores amigos para sempre e verão seu casamento e seus filhos crescerem. Eu ainda não sei o que são dos amigos quando a gente termina a faculdade... Isso deve ser assunto para daqui alguns anos.

Nas últimas semanas de aula eu dormi pouco, estudei muito, e fui a mais festas ainda. Sorri e sorri mesmo estando tão desesperada em ir embora. Sorri com tanta vontade de chorar, sorri porque precisava fazer com que todas as pessoas por perto se lembrassem de que eu fui feliz ali. Porque todo mundo ainda ia ficar por mais tanto tempo ali. Mais uma vez por um caminho desconhecido.


domingo, 8 de setembro de 2013

da saudades

Coloquei a minha vida dentro de meia dúzia de caixas e duas malas de 42 kg. As caixas foram pelo correio e eu espero sinceramente que cheguem bem e inteiras. As malas foram comigo, dentro de um avião que me fazia embarcar no desconhecido. 
De lembranças eu tinha alguns porta-retratos, livros e uma daquelas bandeiras cheia de rabiscos de despedida que os amigos bêbados escreveram no bar ontem a noite. Amigos esses que estão fazendo um super drama por eu ter escolhido ir embora e sem data para voltar.
Um dia inteiro dentro de um avião e um apertamento com móveis desconhecidos em uma avenida suja e movimentada em qualquer lugar bem longe de qualquer um dos outros lugares que eu chamo de casa. 
Abri as malas e coloquei alguns porta-retratos na cabeceira da cama, talvez para tentar fazer com que aquele lugar seja um pouquinho mais meu agora. Para que eu possa chamar de casa o quanto antes.

Mais um vez é hora de lidar com a saudades. Não daquelas que te fazem querer voltar no tempo e viver tudo de novo e estar do lado de todas aquelas pessoas do mesmo jeito outra vez. A saudades de quem convive com e aprende com a mudança abre um buraco no peito e ainda assim te faz sorrir.
Porque você lembra daquele sorriso amigo e daquele colo que só se pode encontrar a muitas milhas de distância e você tem absoluta certeza que viveu aquele momento porque precisava daquilo, mas que agora não precisa mais. 

A saudade te faz chorar e te faz pensar em voltar, em desistir. Mas todas aquelas pessoas que ficaram estão esperando que você siga em frente e você segue. Porque passou e já é hora de viver outras vidas, outros amores, outros amigos, outras paixões, outros ventos e outros mares.

Abri a janela e vi aquela cidade iluminada pelo crepúsculo de outono. Pôr-do-sol e luzes começando a se acender. Resolvi levar a saudade para passear, já que ela vai me perturbar incessantemente até que eu consiga chamar esse novo lugar de casa. Então, ela vai continuar ali, a saudade, ela nunca some do meu peito. Mas vai fechar a ferida e somente fica a mais uma cicatriz, daquelas que começam a coçar quando o tempo muda.